Em
meio à calorosa discussão sobre minorias étnicas concorrendo ou
não ao Oscar (melhor dizendo, sobre negros concorrendo ao Oscar),
dezenas de depoimentos pipocaram na mídia. Entre eles, um vídeo
gravado pelo ator Tonico Pereira questionando a importância que nós,
brasileiros, incluindo gente do meio cinematográfico, damos ao
prêmio da Academia.
Num
ponto do relato, Tonico afirma que essa reverência só acentua nosso papel de
colonizado do cinema americano, enquanto Hollywood nos ignora, a não ser como mercado consumidor. Tanto o vídeo quanto o trecho geram
reflexões sobre como vemos o Oscar e como nos
vemos em relação ao
cinema que escolhemos para consumir e aceitar como “nosso”. Isso
vale para os quadrinhos, para a literatura “de entretenimento”,
para os games. Na linha invisível que une produtores e consumidores,
ficamos restritos ao segundo papel. “Eles” criam, “eles”
lançam, definem, orquestram, julgam, determinam. “Nós”
absorvemos, curtimos, criticamos, comentamos, nos emocionamos,
sonhamos com um pedacinho desse mundo que, no fundo, não nos
pertence. Quantos não odiaram ver Sofia Loren gritar “Roberto”
com o envelope na mão para que o mesmo dançasse como um Didi mocó
encapetado sobre nossa vontade de segurar aquela estátua? Quantos
não roeram as unhas quando Cidade de Deus foi esnobado durante a
fase de indicação, outro entre tantos “filminhos estrangeiros
exóticos repletos de legendas”? Sei que é um assunto duro de
esmiuçar sem cometer injustiças. A História do Brasil, país
riquíssimo culturalmente, é também uma história de subserviência
viralatesca, de um desejo de ser visto, reconhecido, agraciado por um
“outro” portador da chave de nossa autoestima. Há cem anos, em
pleno calor tropical, vestíamos-nos como europeus em nossas esquinas
“parisienses”. Décadas mais tarde, a chanchada lotava salas de
cinema, parodiando, como um primo pobre, carros, trejeitos e
figurinos dos novos donos de nossas almas, os americanos, enquanto
seus predecessores cativavam mentes que se pensavam mais lúcidas com
Sartre, Foucault e a Novelle Vague. Sem querer me estender nesse
legado, e admitindo minha índole “estrangeirocêntrica” (ou
americanocêntrica), é impossível não lembrar das palavras de
Tonico quando penso nas quatro mídias citadas. O Brasil é um país
imenso, com um mercado forte e ativo. Por que, ao contrário da
música, produzimos tão pouco do que consumimos? Por que uma parte
tão pequena do que produzimos está à disposição na sala de
cinema mais próxima, nas prateleiras da livraria ao lado, nas bancas
de jornal do bairro? Ah, ok, um Pablo Villaça enfatizaria que, sei
lá, 30 filmes brasileiros estiveram em cartaz ao longo de 2015.
Garanto que nem 10% disso passou nas telonas do seu bairro, caso você
more longe dos grandes centros. “Ted II” era mais importante. No
Rio de Janeiro, para assistir “Será que ela volta”, um filme bem
divulgado, só indo para Botafogo, Leblon, Copacabana e outros pontos
seletos. Imagine isso para um filme menos difundido.
Se
parte do problema está em vivermos num país com infraestrutura
inferior à de ianques e nipônicos, há também o velho preconceito
com o produto nacional. Já ouvi romancistas falarem de fãs que
consideraram suas histórias “tão boas quanto um livro
estrangeiro”, ou que “fulano pensou quarenta vezes antes de
comprar meu livro porque tinha nome nacional na capa”. Com essa
falta de estrutura e de confiança do mercado com o autor, editoras,
distribuidoras e sala de exibição preferem apostar no produto
importado. Um clone saxão de Stephanie Meyer, mesmo sem ser
conhecido, tem mais chance de ocupar nossas livrarias que um
equivalente nacional. Não é justo. Mas é prático. E mudar isso é
complicado.
Se,
como consequência, parte de nossos autores apela para plataformas e
mercados independentes (sou um desses), outro lote de nossas veias
criativas investe no mercado estabelecido (com este blog, também
viro um desses). Aspirantes a cineastas viram críticos e
comentaristas; quadrinhistas dão aulas para aspirantes a
quadrinhistas, escrevem sobre quadrinhos em vez de produzir
quadrinhos. Como culpá-los? Numa “colônia cultural”, este é de
longe o modo mais viável para se ter leitores, espectadores, feedback; viver
disso, se for o caso. Sim. Todo mercado de entretenimento precisa de
mídias de referência. Mas a profusão de sites e eventos ligados à
cultura nerd no Brasil não é acompanhada por um crescimento
significativo de nosso mercado interno. Mesmo gente com currículo tem
dificuldade para financiar projetos ousados. Caso, por exemplo, de
Claudio Torres, diretor de “O Homem do Futuro”, filme considerado
um sucesso da ficção científica nacional. Claudio tem projetos
mais ambiciosos, mas que não ganham apoio. Para rodar “O Homem do
Futuro”, precisou atrelar ficção científica à comédia e a um
romance leve, condizente com “o que se espera que o público aceite
como produto nacional”. “Sci-fi densa, com produção ostentosa
nível “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, só lá fora,
porque aqui ninguém compra.” Na literatura, onde a concretização
de uma obra demanda menos, há mais brechas disponíveis, editoras
modestas se dedicando à produção nacional de gênero, enquanto as
maiores, que enchem as prateleiras das grandes livrarias, preferem
apostar em quem "já se provou no mercado". É pouco. Para o que tem
que ser feito, é pouco. Se é pouco na literatura, onde dá para
sonhar com o outro lado do muro, a coisa míngua mais nos quadrinhos,
hoje dependentes do crowdfunding, no cinema, nos games... Se alguém
se destaca (um desenhista ou um diretor, por exemplo), é absorvido
pelo mercado externo, mais estável e rentável. Num cenário assim,
com pouca infraestrutura, muito medo e preconceito, perpetuamos nossa
sina de plateia, tal como a Rede TV dedicando horas para falar das
Novelas da Globo, já que não dá para brigar com Golias. Também
não dá para brigar com a Marvel, com a Disney, com a Sony, com
mangás e animes importados, mas se Maurício de Souza e outros
poucos criaram marca por aqui, é porque é possível.
O
Oscar é legal? É. Dá divulgação, vale à pena ganhar, mas não
passa de outra entre tantas premiações autoindulgentes. Exceções
lá e cá, a Academia mal sabe que existimos. Tonico está certo. É
preciso olhar para nossos mercados. Antes de querer respeito alheio,
precisamos nos respeitar.
Isso
me lembra de uma visita a uma feira de quadrinhos. Luis Gê era um
dos convidados. Meus dois colegas viciados em HQ nunca tinham ouvido
falar nele, que se nascesse nos EUA seria tão idolatrado quanto
Frank Miller. Topamos depois com outro colega, um francês,
desesperado por uma HQ de Gabriel Bá e Fabio Moon. Gabriel quem?
Fabio o que? Ganharam um prêmio? Pois é. Eu nunca tinha ouvido
falar nos dois.
Mas
aí Chris Claremont apareceu, esquecemos tudo e viramos tietes.
Atualização: Se você procurar no youtube e na net pela entrevista de Tonico Pereira, não a encontrará com facilidade. Por que? Porque alguém (você sabe quem) deu um jeito de fazer a coisa sumir. Viva a liberdade de expressão!
Atualização: Se você procurar no youtube e na net pela entrevista de Tonico Pereira, não a encontrará com facilidade. Por que? Porque alguém (você sabe quem) deu um jeito de fazer a coisa sumir. Viva a liberdade de expressão!



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