quarta-feira, 8 de março de 2017

Tempestade num copo d´água

Essa semana a net explodiu com uma polêmica envolvendo o ator Finn Jones, que protagoniza a série "Punho de Ferro", exibida pelo Netflix. A discussão girou em torno da etnia do personagem. O ator publicou em seu perfil o vídeo de uma palestra tratando do tema da diversidade nas telas e um tuiteiro o confrontou, perguntando porque o personagem não era asiático em vez de um branco treinado por asiáticos que supera seus professores. Para evitar mais confusão, Finn apagou sua conta do twitter temporariamente, mais isso só serviu para alimentar a polêmica.

O que muitos não sabem é que o personagem "Punho de Ferro" (Iron Fist) surgiu nos quadrinhos como dupla de Luke Cage, então conhecido como Power Man. "Power man and Iron Fist"; era assim que a HQ se chamava, então, apesar de branco, "Punho de Ferro" traz o tema da diversidade em sua gênese, isso num tempo em que o tema era bem menos discutido.
Ninguém tem culpa se o Netflix criou uma série para cada membro da dupla.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Japão expõe pela 1ª vez as lendárias ‘katanas malditas’ de Muramasa

As "katanas malditas" de Muramasa estão em exibição no Museu Kuwana (Foto: Distribuição/Museu Kuwana)
A posse das “lâminas malditas” forjadas pelo lendário ferreiro Muramasa foi proibida durante o Shogunato Tokugawa.
A katana (pronuncia-se kataná, espada japonesa), é impressionantemente bonita, transmitindo um conjunto de tradições culturais profundas e valores estéticos. No entanto, algumas “katanas” diferem não só pela obra de arte visual, mas sim pelo poder e afiação de sua lâmina, forjadas especialmente para batalha, ou seja, matar, porque isso é precisamente o que elas são projetadas para ser.
Símbolos de prestígio e poder, muitas das katanas mais preciosas do Japão foram feitas especificamente para servir como herança de família ou como objetos cerimoniais mantidos em santuários xintoístas.
No entanto, esse conceito não pode ser aplicado sobre as espadas forjadas por Muramasa Sengo, o mais famoso dos ferreiros de espada no Japão e que viveu durante o século 16.
Enquanto a maioria dos colegas forjadores de sua época fazia de tudo para tornar suas espadas o melhor possível, focando-se tanto na afiação como no visual da espada, Muramasa passava seus dias martelando metal em sua oficina com o único propósito de produzir katanas para serem “perfeitas na arte de matar”.
Há registros de que as lâminas de Muramasa estiveram nas mãos de generais famosos e Daimyos por volta de 1535. No entanto, as denominadas “Katanas Muramasa” caíram em desgraça após o império japonês dar lugar ao governo Tokugawa Ieyasu, que estabeleceu o Shogunato Tokugawa, em 1603.
Diz-se que Tokugawa perdeu muitos amigos e parentes, incluindo filho, pai e avô, mortos pelas espadas forjadas por Muramasa, inclusive, ele próprio foi ferido por uma delas em batalha.
Em consequência, o Shogun Tokugawa proibiu os samurais de empunhar as lâminas de Muramasa. Isso contribuiu ainda mais para a lenda Muramasa e levou a muitas peças de teatro e dramas na literatura japonesa.
Devido ao estigma, todas as espadas forjadas por Muramasa ganharam a alcunha de “Katana Maldita”. Na época, muitas delas tiveram sua assinatura alterada ou removida, em vista de que a posse de uma arma forjada pelo lendário ferreiro resultaria em prisão e/ou morte, de acordo com a lei imposta pelo Shogun.
Na época, todos temiam o poder dessas lâminas e lendas foram lançadas sobre elas, afirmando que “as espadas de Muramasa eram amaldiçoadas e encheria seus proprietários com sede incessante de sangue”.
Katana de Muramasa (Foto: Kyodo/Museu Nacional de Tóquio)
Katana de Muramasa (Foto: Kyodo/Museu Nacional de Tóquio)
Mediante isso, as “Katanas Muramasa” tornaram-se extremamente raras, enquanto as poucas que sobraram passaram a ser valorizadas somente após a derrocada do Shogunato.
A boa notícia é que um significativo número dessas lâminas foi preservado e uma incrível coleção das “Katanas Muramasa” está agora em exposição como parte de uma mostra especial realizada pelo Museu Kuwana, na província de Mie.
Apesar de a lenda afirmar que as espadas de Muramasa amaldiçoam qualquer um que tocá-las, ou até mesmo aqueles que apenas as vislumbrem, o visitante estará seguro na primeira mostra das lendárias ‘katanas malditas’ de Muramasa.
“Felizmente, o vidro de proteção das vitrines do museu são eficazes em manter tais forças obscuras longe dos visitantes”, diz o site japonês ‘Rocket News’.
Brincadeiras a parte, o museu montou um sistema especial para proteger as preciosas espadas do calor, poeira e umidade enquanto elas estiverem expostas ao público.
“Todos os itens Muramasa estão protegidos por vidros blindados”, diz um curador do museu. “Os vidros impedem a entrada de oxigênio, bem como qualquer tipo de bactéria prejudicial às lâminas”, acrescenta ele, de acordo com a agência de notícias ‘Kyodo’.
Mais de 20 “lâminas Muramasa” estão em exibição que, segundo o museu, foram reunidas por intermédio de empréstimo junto a outros museus e de colecionadores particulares em todo o Japão. Além dessas raras espadas, a mostra conta ainda com outras armas produzidas pelos aprendizes do lendário ferreiro.
SERVIÇO
Local: Museu Kuwana
Endereço: Mie-ken, Kuwana-shi, Kyomachi 37-1 – 511-0039
Horários: das 9h30 às 17h / fechado às segundas-feiras, mas aberto nos feriados que caem na segunda-feira.
Entrada: 500 ienes (US$ 4,85) / estudantes e crianças não pagam
Data: a mostra vai até o dia 16 de outubro de 2016
Mais informações: Museu Kuwana (em japonês)
Texto extraído de: mundo-nipo

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Segura a porta!!!

Essa é para os fãs de Game of Thrones, avisando de antemão para quem não viu a sexta temporada, que essa postagem contém spoilers. Quem está atualizado com a série se lembra do episódio em que nos é revelada a origem do nome e dos problemas de Hodor, que vêm de um trauma, de quando ele viu a própria morte no futuro e escutou "Hold the door" (segura a porta) enquanto zumbis o atacavam. O que para nós, fãs, foi um choque, mas também um deleite artístico (ficamos tristes pelo personagem, mas felizes pela coerência e criatividade da revelação), para dubladores e tradutores foi um calvário. Como fazer "hold the door" se transformar em "hodor" numa língua estrangeira? Esse vídeo mostra como o problema foi resolvido (ou mal resolvido) em 12 línguas diferentes.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Brasil: Colônia Cultural?

Em meio à calorosa discussão sobre minorias étnicas concorrendo ou não ao Oscar (melhor dizendo, sobre negros concorrendo ao Oscar), dezenas de depoimentos pipocaram na mídia. Entre eles, um vídeo gravado pelo ator Tonico Pereira questionando a importância que nós, brasileiros, incluindo gente do meio cinematográfico, damos ao prêmio da Academia.



Num ponto do relato, Tonico afirma que essa reverência só acentua nosso papel de colonizado do cinema americano, enquanto Hollywood nos ignora, a não ser como mercado consumidor. Tanto o vídeo quanto o trecho geram reflexões sobre como vemos o Oscar e como nos vemos em relação ao cinema que escolhemos para consumir e aceitar como “nosso”. Isso vale para os quadrinhos, para a literatura “de entretenimento”, para os games. Na linha invisível que une produtores e consumidores, ficamos restritos ao segundo papel. “Eles” criam, “eles” lançam, definem, orquestram, julgam, determinam. “Nós” absorvemos, curtimos, criticamos, comentamos, nos emocionamos, sonhamos com um pedacinho desse mundo que, no fundo, não nos pertence. Quantos não odiaram ver Sofia Loren gritar “Roberto” com o envelope na mão para que o mesmo dançasse como um Didi mocó encapetado sobre nossa vontade de segurar aquela estátua? Quantos não roeram as unhas quando Cidade de Deus foi esnobado durante a fase de indicação, outro entre tantos “filminhos estrangeiros exóticos repletos de legendas”? Sei que é um assunto duro de esmiuçar sem cometer injustiças. A História do Brasil, país riquíssimo culturalmente, é também uma história de subserviência viralatesca, de um desejo de ser visto, reconhecido, agraciado por um “outro” portador da chave de nossa autoestima. Há cem anos, em pleno calor tropical, vestíamos-nos como europeus em nossas esquinas “parisienses”. Décadas mais tarde, a chanchada lotava salas de cinema, parodiando, como um primo pobre, carros, trejeitos e figurinos dos novos donos de nossas almas, os americanos, enquanto seus predecessores cativavam mentes que se pensavam mais lúcidas com Sartre, Foucault e a Novelle Vague. Sem querer me estender nesse legado, e admitindo minha índole “estrangeirocêntrica” (ou americanocêntrica), é impossível não lembrar das palavras de Tonico quando penso nas quatro mídias citadas. O Brasil é um país imenso, com um mercado forte e ativo. Por que, ao contrário da música, produzimos tão pouco do que consumimos? Por que uma parte tão pequena do que produzimos está à disposição na sala de cinema mais próxima, nas prateleiras da livraria ao lado, nas bancas de jornal do bairro? Ah, ok, um Pablo Villaça enfatizaria que, sei lá, 30 filmes brasileiros estiveram em cartaz ao longo de 2015. Garanto que nem 10% disso passou nas telonas do seu bairro, caso você more longe dos grandes centros. “Ted II” era mais importante. No Rio de Janeiro, para assistir “Será que ela volta”, um filme bem divulgado, só indo para Botafogo, Leblon, Copacabana e outros pontos seletos. Imagine isso para um filme menos difundido.



Se parte do problema está em vivermos num país com infraestrutura inferior à de ianques e nipônicos, há também o velho preconceito com o produto nacional. Já ouvi romancistas falarem de fãs que consideraram suas histórias “tão boas quanto um livro estrangeiro”, ou que “fulano pensou quarenta vezes antes de comprar meu livro porque tinha nome nacional na capa”. Com essa falta de estrutura e de confiança do mercado com o autor, editoras, distribuidoras e sala de exibição preferem apostar no produto importado. Um clone saxão de Stephanie Meyer, mesmo sem ser conhecido, tem mais chance de ocupar nossas livrarias que um equivalente nacional. Não é justo. Mas é prático. E mudar isso é complicado.

Se, como consequência, parte de nossos autores apela para plataformas e mercados independentes (sou um desses), outro lote de nossas veias criativas investe no mercado estabelecido (com este blog, também viro um desses). Aspirantes a cineastas viram críticos e comentaristas; quadrinhistas dão aulas para aspirantes a quadrinhistas, escrevem sobre quadrinhos em vez de produzir quadrinhos. Como culpá-los? Numa “colônia cultural”, este é de longe o modo mais viável para se ter leitores, espectadores, feedback; viver disso, se for o caso. Sim. Todo mercado de entretenimento precisa de mídias de referência. Mas a profusão de sites e eventos ligados à cultura nerd no Brasil não é acompanhada por um crescimento significativo de nosso mercado interno. Mesmo gente com currículo tem dificuldade para financiar projetos ousados. Caso, por exemplo, de Claudio Torres, diretor de “O Homem do Futuro”, filme considerado um sucesso da ficção científica nacional. Claudio tem projetos mais ambiciosos, mas que não ganham apoio. Para rodar “O Homem do Futuro”, precisou atrelar ficção científica à comédia e a um romance leve, condizente com “o que se espera que o público aceite como produto nacional”. “Sci-fi densa, com produção ostentosa nível “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, só lá fora, porque aqui ninguém compra.” Na literatura, onde a concretização de uma obra demanda menos, há mais brechas disponíveis, editoras modestas se dedicando à produção nacional de gênero, enquanto as maiores, que enchem as prateleiras das grandes livrarias, preferem apostar em quem "já se provou no mercado". É pouco. Para o que tem que ser feito, é pouco. Se é pouco na literatura, onde dá para sonhar com o outro lado do muro, a coisa míngua mais nos quadrinhos, hoje dependentes do crowdfunding, no cinema, nos games... Se alguém se destaca (um desenhista ou um diretor, por exemplo), é absorvido pelo mercado externo, mais estável e rentável. Num cenário assim, com pouca infraestrutura, muito medo e preconceito, perpetuamos nossa sina de plateia, tal como a Rede TV dedicando horas para falar das Novelas da Globo, já que não dá para brigar com Golias. Também não dá para brigar com a Marvel, com a Disney, com a Sony, com mangás e animes importados, mas se Maurício de Souza e outros poucos criaram marca por aqui, é porque é possível.

O Oscar é legal? É. Dá divulgação, vale à pena ganhar, mas não passa de outra entre tantas premiações autoindulgentes. Exceções lá e cá, a Academia mal sabe que existimos. Tonico está certo. É preciso olhar para nossos mercados. Antes de querer respeito alheio, precisamos nos respeitar.



Isso me lembra de uma visita a uma feira de quadrinhos. Luis Gê era um dos convidados. Meus dois colegas viciados em HQ nunca tinham ouvido falar nele, que se nascesse nos EUA seria tão idolatrado quanto Frank Miller. Topamos depois com outro colega, um francês, desesperado por uma HQ de Gabriel Bá e Fabio Moon. Gabriel quem? Fabio o que? Ganharam um prêmio? Pois é. Eu nunca tinha ouvido falar nos dois.

Mas aí Chris Claremont apareceu, esquecemos tudo e viramos tietes.


Atualização: Se você procurar no youtube e na net pela entrevista de Tonico Pereira, não a encontrará com facilidade. Por que? Porque alguém (você sabe quem) deu um jeito de fazer a coisa sumir. Viva a liberdade de expressão!